Eternamente Pitágoras ...
Domingo, 21 de setembro de 2008
Pitágoras e o Número: A Revolução da Filosofia e da Ciência
A figura de Pitágoras, fundador da escola pitagórica, é
envolta em lendas e mistérios. Nascido em Samos por volta de 571 a.C., ele se
mudou para a Magna Grécia e fundou, em Crotona, uma associação
científico-ético-política que se tornou um centro de irradiação de seus ideais.
Pitágoras aspirava — e conseguiu — expandir a educação ética
de sua escola para uma reforma política. No entanto, essa ambição gerou
oposições, forçando-o a se mudar para Metaponto, onde provavelmente faleceu por
volta de 497 a.C.
Apesar da escassez de documentação, a influência do
pitagorismo na história da filosofia é inegável, atravessando os séculos até os
dias de hoje. Como no caso de Shakespeare, se a existência de Pitágoras é
questionada, a doutrina que leva seu nome é uma realidade poderosa. Em 1917, a
descoberta de uma cripta pitagórica em Roma comprovou a existência e a difusão
de seus seguidores.
A Essência das Coisas: O Número
Para os pitagóricos, a essência e o princípio de todas as
coisas é o número, ou seja, as relações matemáticas. Acreditavam que o número
era a união da forma e da matéria. Essa visão, que partia da racionalidade de
que tudo é regido por leis numéricas, evoluiu para a crença de que o número em
si era a substância de todas as coisas.
Para explicar a multiplicidade e o devir do mundo a partir de
um princípio único e imutável, os pitagóricos introduziram a noção de opostos:
o limitado e o ilimitado, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito.
Ímpar
(limitado): Põe limites à divisão por dois, sendo, portanto, determinado e
perfeito.
Par
(ilimitado): Não põe limites à divisão, sendo imperfeito.
Essa oposição radical explicaria o múltiplo e o devir,
reconduzidos à unidade pela harmonia matemática que governa o mundo material,
moral e astronômico.
Pitagorismo versus Eleatismo
A filosofia pitagórica se contrapõe ao eleatismo, que afirmava
a existência de uma única unidade, negando a pluralidade e o devir. Os
pitagóricos argumentavam que a própria unidade é o resultado do Ser e do
Não-Ser, ou do limitado e do ilimitado (o Ápeiron de Anaximandro).
Assim, se a unidade existe, a pluralidade também deve existir.
O ponto de partida da filosofia pitagórica parece ser a defesa
da ciência matemática contra os eleatas. Ao atacar o conceito de unidade
absoluta, eles mostraram que a própria unidade comporta predicados
contraditórios, o que a torna um conceito impossível por si só. Eles
acreditavam que, uma vez afirmada a existência da unidade, a pluralidade
poderia ser deduzida.
Os pitagóricos acreditavam que a verdadeira essência das
coisas estava em suas relações numéricas, afirmando que não há qualidades, mas
apenas quantidades. Essas quantidades seriam delimitações do ilimitado,
analogamente ao Ser potencial de Aristóteles.
A Música e a Harmonia Universal
Um dos pilares do pensamento pitagórico é a música. Eles
perceberam, através do monocórdio, que as variações sonoras dependem da
extensão da corda. Isso os levou a concluir que a música — que existe em nossos
nervos e cérebro — é, fora de nós, pura relação numérica.
A música se tornou o melhor exemplo de sua filosofia. Eles
acreditavam que o universo podia ser expresso exclusivamente por números. A
acústica foi a ponte que permitiu afirmar que tudo o que é qualitativo é, na
verdade, quantitativo. Essa ideia é a base da física e da química modernas.
Contribuições para a Ciência e a Moral
A filosofia da natureza e a astronomia pitagóricas
representaram um grande avanço. Os pitagóricos afirmaram a esfericidade da
Terra e dos outros corpos celestes, além da sua rotação e revolução em torno de
um foco central. Essa harmonia das esferas — a música permanente produzida pelo
movimento dos astros — é a própria tessitura do que o homem considera
"silêncio".
Na moral, o conceito de harmonia domina, conectado às práticas
ascéticas e à crença na metempsicose e na reencarnação das almas. A grande
novidade introduzida por Pitágoras foi transformar a salvação da alma em um
esforço puramente intelectual: a purificação resultaria do trabalho da mente,
que descobre a estrutura numérica das coisas.
O Escândalo dos Irracionais
A concepção pitagórica de que a extensão era descontínua e
composta por unidades indivisíveis logo enfrentou um grande desafio: os números
irracionais. O principal impasse surgiu com o próprio teorema de Pitágoras,
onde a relação entre o lado e a diagonal de um quadrado (√2) não podia ser
expressa por números inteiros.
Esse "escândalo" abalou as bases de sua matemática,
mas, ao mesmo tempo, impulsionou o desenvolvimento de toda a ciência e
filosofia gregas. O legado de Pitágoras é um lembrete do poder do pensamento
exato e da busca por uma ordem oculta por trás da aparente complexidade do
universo.
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