O corpo pode se acostumar, e se acostuma. Mas a alma é terra que não aceita cercas.
“O corpo pode se acostumar, e se acostuma. Mas a alma é terra que não aceita cercas.”
Tudo
começou com essa frase, rabiscada no verso de um envelope que o tempo quase
transformara em pó.
O
que deveria ser apenas uma reportagem investigativa sobre as marcas deixadas
pela seca no Agreste pernambucano acabou se transformando, para a jornalista
Maria Helena Monteiro de Barros, em uma viagem inesperada para dentro da
própria história.
Entre
os escombros de uma vila que os mapas pareciam ter esquecido, Helena encontrou
um baú.
Não
havia ouro dentro dele.
Havia algo muito mais perigoso: a voz de uma mulher que o tempo não conseguiu calar.
Maria das Dores.
Nas
cartas que jamais chegaram ao destino, ela escrevia sobre a terra que secava,
os filhos que lutavam para sobreviver e a esperança cada vez mais difícil de
sustentar. Escrevia também para o marido, Zeca, que havia partido para São
Paulo em busca de trabalho e de um futuro que talvez nunca tivesse a
oportunidade de conhecer.
Enquanto
Helena avançava na leitura, uma história esquecida começava a ganhar contornos.
Havia
uma família.
Havia
uma tragédia.
E
havia uma criança.
Uma menina chamada Mariazinha.
Movida
por uma força que ainda não sabia chamar de memória, Helena começou a seguir os
rastros deixados por aquela família. A busca a levaria por estradas castigadas
pela seca, arquivos esquecidos, corredores frios de hospitais e pelas
lembranças de homens que haviam aprendido a guardar histórias durante décadas.
Ela
acreditava estar procurando respostas sobre uma mulher que não conhecia.
Não
sabia, ainda, que algumas histórias não nos procuram para serem descobertas.
Procuram-nos
para nos devolver aquilo que perdemos.
A cada quilômetro percorrido, Helena se aproximava de uma verdade que mudaria para sempre a maneira como enxergava a própria vida.
Porque algumas viagens não nos levam para longe.
Levam-nos de volta para casa.
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