O perigo da autoestima e a escolha de fazer o melhor ...


Domingo, 01 de fevereiro de 2026

Durante muito tempo fomos ensinados a acreditar que a autoestima é algo sempre positivo. Desde cedo ouvimos que precisamos “ter autoestima elevada”, “acreditar em nós mesmos” e “nos valorizar”. Isso se tornou quase um mandamento moderno. Mas será que essa ideia é tão saudável quanto parece?

Alguns psicólogos e pensadores já alertam há décadas que o conceito de autoestima pode ser problemático. Isso porque ele se apoia na noção de um “eu” fixo, único e facilmente definível. Um “eu” que pode ser avaliado, medido e classificado como bom ou ruim, forte ou fraco, melhor ou pior.

O problema começa quando damos a esse “eu” uma nota alta. Ao dizer “eu sou uma pessoa inteligente”, “eu sou forte”, “eu sou melhor que os outros”, acabamos criando uma visão geral e rígida sobre nós mesmos. Essa generalização ignora algo essencial: somos feitos de contradições. Temos momentos de lucidez e de ignorância, de coragem e de medo, de generosidade e de egoísmo.

Quando não aceitamos essas nuances, quando insistimos em sustentar uma imagem inflada de quem somos, entramos em conflito com a realidade. E a realidade, cedo ou tarde, cobra seu preço. A frustração aparece quando falhamos. A raiva surge quando somos contrariados. A tristeza se instala quando a imagem idealizada de nós mesmos começa a ruir.

O psicólogo Paul Hauck foi um dos críticos dessa visão tradicional de autoestima. Segundo ele, ensinar uma autoestima elevada pode levar a dois caminhos igualmente problemáticos. No primeiro, a pessoa desenvolve arrogância, prepotência e um sentimento de superioridade em relação aos outros. No segundo, quando essa autoestima não se sustenta, surgem a culpa, a depressão, a insegurança e o sentimento de inferioridade.

Em ambos os casos, o foco está sempre no “eu”: em defendê-lo, prová-lo ou salvá-lo.

Talvez exista um caminho mais simples e mais honesto. Em vez de tentar ser “alguém melhor”, podemos apenas tentar fazer o melhor. Fazer o melhor que for possível em cada situação, com o que temos naquele momento. Sem precisar inflar o ego. Sem precisar nos definir o tempo todo.

Quando o foco sai do “quem eu sou” e vai para “o que posso fazer agora”, algo muda. O erro deixa de ser uma ameaça à identidade e passa a ser apenas um aprendizado. O acerto deixa de ser um troféu pessoal e se torna apenas parte do processo.

Deixar o “eu” de lado — esse eu carente, competitivo e egocêntrico — pode ser um alívio. No lugar da autoestima, talvez seja mais saudável cultivar responsabilidade, presença e disposição para agir da melhor forma possível. Não para provar algo sobre nós mesmos, mas simplesmente porque é o que pode ser feito.

 

"Se essa mensagem tocou você, compartilhe com quem pode estar precisando."

m. trozidio

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